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Ayahuasca em Debate
Em novembro de 2002, cientistas e pessoas provenientes de vários continentes se encontraram em Amsterdã (Holanda) para participar de uma conferência sobre a ayahuasca, utilizado em rituais religiosos. Neste artigo, mostramos os principais pontos levantados durante o encontro. A ayahuasca (yagé, daime, vegetal,) é um chá psicoativo que desde tempos imemoráveis é preparado e tomado pelos índios da Floresta Amazônica. Aos poucos, o chá está ficando conhecido e acessível a um público cada vez maior fora da America Latina. O caráter da experiência com a ayahuasca e a significação do chá para a ciência e a cultura do século 21 vai muito além. Durante a "Psychoactivity III", a primeira conferência européia sobre a ayahuasca, muitos ayahuasqueiros descobriram que o chá é um tema bastante sério para cientistas renomados. A ayahuasca, na verdade, é o eixo de um movimento multidisciplinar que está nascendo. Um bom exemplo disso é o livro The Antipodes of the Mind, de Benny Shanon, um dos participantes da conferência. Shanon lecionou na Universidade Stanford, na Califórnia, e atualmente é professor de psicologia cognitiva na Universidade Hebraica, em Jerusalém. Em seu livro ele escreveu: "O impacto afetivo e espiritual da ayahuasca pode ser muito profundo. Freqüentemente as pessoas que a experimentaram relatam a experiência como uma mudança radical de suas vidas, reconhecendo que após essa experiência 'não são mais a mesma pessoa'. Mas, mesmo quando o impacto do efeito não foi tão radical, ficou uma experiência maravilhosa para aqueles que a tomaram e a descreveram como algo nunca antes vivido." A ayahuasca é o veículo psicoativo mais usado pelos índios da Amazônia. A palavra vem do idioma quéchua e significa "vinho da alma" ou "cipó da pequena morte". Também é chamada "madrecita de todas as plantas" e "professor dos professores". Os componentes mais importantes do Banisteriopsis caapi são harmine e harmaline, inibidores de monoamina-oxidase (MAO)(2); as folhas da Psychotria viridis contém dimetil-triptamina (DMT). Acredita-se que os inibidores de MAO tornam o DMT oralmente ativo. Usadas com medicamento antidepressivo, essas substâncias podem ser perigosas. O efeito pode surgir em ondas; a melhor maneira de aproveitá-lo é não oferecer resistência a elas e entregar-se. O chá fornece "luz" (entendimento do mundo e autoconhecimento) e também a "força" para usar essa luz no dia-a-dia. Como espelho da consciência e catalizador da memória pode ter um grande valor terapêutico. Antropologia, psicologia, etnobotânica, farmacologia, a situação jurídica e uma breve história da "arte ayahuasqueira" foram temas das palestras de cientistas conhecidos, como o antropólogo Luis Eduardo Luna, o psicólogo Benny Shanon, o farmacologista Jace Callaway, o toxicólogo Laurent Rivier e o botânico Christian Raetsch. Xamãs da Amazônia fizeram um ritual de abertura. Entrevista
Patrick Druot, 53 anos, físico, pós-graduado na Universidade de Columbia, consegue enxergar a virada do milênio com um otimismo contagiante, apesar do quadro de guerras, desemprego e desigualdade social. Ele arrisca dizer que nos espera um tempo de mais tolerância, compreensão e amor. Segundo Druot, em breve ocorrerá uma mudança porque as pessoas buscam cada vez mais respostas espirituais para dar sentido à existência. "Acho que o Brasil terá um papel importante neste despertar", ele anuncia. "Essas experiências me reconectaram a Deus." Quanto a frequentar uma igreja, ele diz: "Sim. Uma floresta, uma praia, o mundo todo é uma catedral." Em sua sétima visita ao Brasil, para dar workshops, ele deu esta entrevista. ISTOÉ - Como foi a sua experiência com o Santo Daime? Druot - Não era o Santo Daime que me interessava, mas a ayahuasca. Mas eu não tinha contatos diretos. Não se pode ir à floresta buscar a planta sozinho. Em 1994, meu antigo editor brasileiro fez um contato com Alex Polari, um dos líderes da seita em Céu do Mapiá. Tenho respeito pelos rituais, pela igreja, mas não participei. Disse desde o início que me interessava pela planta que, no princípio, era uma planta xamânica. Em abril de 1995, eu e minha mulher, Liliane, passamos duas semanas na floresta e fizemos muitas experiências sob o efeito da ayahuasca. O cérebro funciona de forma totalmente diferente. Tudo se abre. Você pode ver espíritos, as auras. Fizemos até contato telepático. Por três ou quatro minutos, soubemos exatamente o que o outro pensava. Sentia e via a Terra respirar, num movimento claro. Tudo se organizava em fractais. ISTOÉ - De que serviu a experiência? Druot - A ayahuasca é usada para propósitos religiosos, alguns usam para curar, tirar pessoas da dependência de drogas, álcool. Mas em minha opinião, é muito mais do que isso. Acho que ainda não se sabe usá-la para conhecer o outro e a si. Com ela, se poderia descobrir muito sobre as causas de doenças físicas e emocionais. Essa experiência provou o que estudei por 15 anos: só utilizamos uma parte mínima do cérebro. Ainda temos algumas vibrações e percepções que vêm dela. Não vemos mais uma floresta como antes. Nosso contato com a terra foi modificado. Há uma percepção mais aguçada. Traz sentimentos de tolerância, de respeito e de amor. ISTOÉ - É possível passar por este tipo de experiência sem a ayahuasca? Druot - Talvez. Eu já tinha percepções desde 1985, estimulando uma visão vibracional. Há um campo magnético ou vibracional que circunda todas as coisas vivas, até nós mesmos. E tudo o que acontece com você está escrito neste campo. É uma técnica. Tem de ser feito com sons, sobretudo com tambores, que são os batimentos cardíacos do criador. Quando se está em sincronia com uma batida de tambores, é possível fazer a viagem. Passei por essas experiências com os índios do Canadá, nas ilhas do Pacífico, nos EUA. O uso de plantas é específico da América do Sul e Central, onde se usa o peiote. ISTOÉ - A experiência é similar? Druot - A ayahuasca é mais imediata ao abrir as portas psíquicas, as portas da percepção. É como se o cérebro se abrisse. Tecnicamente falando: normalmente, vemos o mundo através de nossos olhos. Mas não vemos como o cérebro vê. O olho é um instrumento de análise de frequência, como o ouvido. Isso só foi descoberto nos anos 60. Isso significa que vemos e escutamos através dos olhos, mas não é como o cérebro vê e escuta. Com a ayahuasca, você vê e escuta como o cérebro. É uma percepção holográfica do mundo. Porque o cérebro é um holograma. Ele se abre para você. Mas acho que não se pode tomá-la de qualquer jeito, é preciso uma boa orientação, alguém que te ajude a passar pelos vários estágios da ayahuasca. E também é preciso estar junto à natureza. Não acho cabível tomá-la num lugar fechado, por exemplo. O que acontece é que a planta abre todos os canais, as pessoas vêem cores, caleidoscópios e ficam felizes. Mas é muito mais do que isso. ISTOÉ - Como o sr. se preparou para a experiência? Druot - Antes de tomar a ayahuasca, estudei o trabalho de um etnofarmacobiologista da Finlândia, desenvolvido durante seis anos. Eu sabia que não havia efeitos colaterais nem risco de dependência. ISTOÉ - O sr. sentiu medo? Druot - Sim, porque nunca tinha tomado nada parecido na vida. Não sabia exatamente o que esperar. Quando comecei a sentir os efeitos, me senti mais confortável, entendi o que a planta me ensinava. ISTOÉ - O sr. acha que há hoje uma maior abertura do mundo ocidental para estes ensinamentos? Druot - Sim. As pessoas querem saber quem são, qual o seu lugar no mundo. Não somos robôs, somos seres humanos. Entre muitos povos índios, o próprio nome do povo significa seres humanos, como os cheyenes americanos. No Havaí, os locais chamam os brancos de haoles, que significa os que são mortos por dentro. Eles dizem que não estamos vivos, porque não estamos conectados com os espíritos e a natureza. ISTOÉ - A que o sr. atribui esse interesse? Druot - No século XVII, houve dois gênios que criaram os fundamentos da ciência moderna: René Descartes e Isaac Newton. Eles começaram a explicar muitos fenômenos que não se explicavam antes, mas o problema de suas visões foi ver o ser humano como uma máquina, um relógio. Desprezaram a consciência e o espírito. A ciência se pulverizou. Olha-se apenas o corpo, não o espírito. Acho que o terceiro milênio trará a reunião de tudo. Os xamãs dizem que as doenças entram quando a pessoa está separada dela mesma e do mundo. Os índios navajos americanos têm um sistema médico que reconecta a pessoa a ela mesma e ao universo. Agora, há na Universidade de Medicina de Phoenix, no Arizona, um departamento intercultural com xamãs navajos e médicos americanos, que tentam entender como eles curam pessoas desenganadas de câncer, por exemplo. |
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