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"Sol, Lua, Estrela,    a Terra, o vento e o mar,    é a Luz do firmamento,    é só quem eu devo amar."

Xamanismo
    Existe atualmente um importante redespertar das formas mais tradicionais do xamanismo. Este "redespertar" se faz sentir numa fração reduzida, mas muito importante da população, que faz a experiência de uma nova espiritualidade, caracterizada por uma abertura em direção aos sistemas religiosos não-ocidentais. Esta tendência é particularmente marcante porque ela inclui pessoas instruídas, pertencentes às classes médias e superiores, ocupando dentro da sociedade posições que lhe permitem influenciar as idéias e as correntes de pensamento. Neste grupo, muitas crenças diferentes foram redefinidas e remodeladas em um novo movimento místico.
    Mesmo tendo raízes na renascença espiritual dos séculos passados e no séc. XIX em particular, o neoxamanismo teve sua definição inicial nos anos 60 e se desenvolveram sob diversas formas depois de 1970. Ele é caracterizado pela busca de um novo sentido para a vida, que começou a encontrar sua expressão dentro de uma idéia de parentesco entre todos os povos, um movimento de "retorno à terra". Nele se acentua o papel pessoal e individual dentro do misticismo religioso e o contato direto com o transcendental, mais do que em se contentar em observar os ritos praticados pelas igrejas oficiais. Os anos 70 viram aparecer um movimento psicológico acentuando o poder que cada pessoa possui em si de alcançar mais na vida. Os grupos de trabalho surgiram onde se ensinava técnicas que conduzem ao desenvolvimento pessoal.
    Eles se tornam mais ou menos "religiosas" na acepção mais ampla do termo e conservam sua fé na transcendência. Toda rota que conduz à luz é válida no plano espiritual é isso que conta. O equilíbrio espiritual e a necessidade de se sentir em harmonia com o Cosmo é uma mudança essencial na direção do bem-estar psíquico e espiritual dos indivíduos e do mundo. Este princípio de intercomunicação entre todas as coisas, numa dimensão ecológica nos remete a uma profunda preocupação com a sobrevivência da Terra e do meio ambiente.
    Estas preocupações são em relação não somente com a crença numa guerra nuclear, mas também com os danos mais imediatos ao meio ambiente, aos dejetos nucleares, à poluição da terra, da água, do ar, à destruição das florestas, dos animais e da camada de ozônio. Estes cuidados apresentam um caráter de urgência. As teorias e os trabalhos neoxamânicos constituem um meio eficaz de colocar um fim a tais perigos e a modificar o curso do desenvolvimento humano na direção de uma supervida. Uma mudança real nas atitudes pode ser obtida por um trabalho místico estendido a toda população do globo, sendo possível criar um mundo novo e melhor.
    Neoxamãs são indivíduos em busca de transcendência. Eles não se filiam nem a uma organização nem a um grupo religioso ou cultural. Acreditam que uma pessoa possa viajar na realidade alternativa para poder obter ajuda. As ações realizadas podem afetar a realidade ordinária. Acredita na existência e na importância das auras e dos chacras (centros de energia no corpo) na cura e nos atos de poder. No interior da rede xamânica, cada um se esforça virtualmente para conseguir um estado de transcendência, de maneira a poder aportar com ajuda e cura da sociedade em geral. Utilizam às vezes técnicas xamânicas para operar curas, mas sua interpretação da doença é mais ampla. Muitos aderem à teoria microbiana e crêem no valor das técnicas médicas modernas. A cura psicoespiritual é considerada um complemento da medicina ocidental e não uma alternativa.

Chefe Indígena Seattle
    Discurso pronunciado em 1855 pelo chefe Indígena Seattle, cujo nome foi dada à cidade de Seattle, E.U.A.
    "O Presidente declarou em Washington que deseja comprar a nossa terra. Mas como se há de comprar ou vender o céu, a terra? Tal idéia é estranha para nós. Se não possuímos a presença do ar, e o brilho da água, como se há de comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. Cada agulha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada neblina nos bosques sombrios. Cada campina. Cada inseto que zumbe. Tudo isso é sagrado na memória e na experiência do meu povo. Conhecemos a seiva que corre pelas árvores tal como conhecemos o sangue que corre pelas nossas veias. Somos parte da terra, e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o gamo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, as essências do prado, o calor do corpo do pônei e o homem, todos pertencem à mesma família. A água brilhante que se escoa nos ribeiros e nos rios não é somente água, mas o sangue de nossos ancestrais. Se lhe vendermos a nossa terra, você terá de lembrar-se de que ela é sagrada.
    Os rios são nossos irmãos. Eles aplacam a nossa sede ,transportam as nossas canoas e alimentam os nossos filhos. Por isso você deve ter para com os rios a benevolência que teria para com qualquer irmão. Se lhe verdermos a nossa terra, lembre-se de que o ar nos é preciso. O vento dá aos nossos filhos o espírito de vida. Por isso, se lhe vendermos a nossa terra, você precisará mantê-la à parte, como algo sagrado, como um lugar aonde um homem pode ir expor-se ao vento que é perfumado pelas flores do prado. Ensinará você a seus filhos o que nós ensinamos aos nossos filhos, que a terra é nossa mãe? O que acontece à terra acontece aos filhos da terra. Isso nós sabemos. A terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, como o sangue, que nos une a todos. O homem não tece a teia da vida; nela, ele é apenas um fio. O que ele faz para a teia, fá-lo para si mesmo. Uma coisa nós sabemos: nosso Deus é também o seu Deus. A terra Lhe é preciosa. E danificar a terra é desprezar o seu criador.
    Nós amamos esta terra tal como o recém-nascido ama as batidas do coração de sua mãe. Por isso, se lhe vendermos a nossa terra, ame-a como nós a temos amado. Preocupe-se com ela como nós nos temos preocupado. Tenha em mente a lembrança da terra qual como ela for quando você a receber. Preserve a terra para todas as crianças e ame-a como Deus ama a todos nós. Assim como nós somos parte da terra, também você é parte da terra. Esta terra é preciosa para nós e também para você. Uma coisa nós sabemos: só há um Deus. Nenhum homem, seja ele pele-vermelha ou branco, pode viver isolado. Afinal, somos todos irmãos."

Vida Enteógena
"É profundamente excitante e fértil o fato de que o xamanismo, as "técnicas arcaicas do êxtase ", na feliz definição de Elíade, estejam novamente em destaque em nossos dias. Desde as incursões às selvas sul-americanas de alguns botânicos e etnógrafos do século passado, que a comunidade científica vem demonstrando um crescente interesse pela contribuição que as plantas psico-ativas podem dar, tanto para estabeler uma cartografia da consciência, quanto para a solução dos grandes enigmas da espécie humana. Em torno dessa indagação sobre os efeitos dessas plantas no sistema nervoso central, seu papel como fator estruturador da autoconsciência do homem e na criação do próprio pensamento religioso, está se criando um campo de estudos comum entre o saber científico e a experiência mística. Se estas técnicas, xamânicas, principalmente as que se servem das plantas sagradas, foram responsáveis no passado pelas visões que deram origem às grandes revelações espirituais, certamente ainda hoje, ela nos estarão transmitindo a mesma mensagem. E a nossa consciência é ao mesmo tempo o aparelho receptor e o cenário onde essa mensagem nos é revelada. Isso é válido tanto para as técnicas xamânicas tradicionais quanto para as religiões enteógenas, fenômeno recente, dos quais o Culto do Santo Daime no Brasil, da Iboga no Gabão e do Peiote nos EUA são os maiores expoentes. Todos esses cultos utilizam um sacramento enteógeno, uma planta psico-ativa que em contexto apropriado, produz uma expansão da consciência e uma experiência de cunho eminentemente místico. Nesses cultos, a comunhão com a entidade enteógena produz experiências marcantes e profundamente significativas para todos aqueles que dela participam. A linguagem visionária nos torna conscientes de um ethos e de um dharma que até agora julgávamos fazer parte apenas dos livros que tratam de um passado longínquo. Mas esta grandiosidade, ausente no nosso nível de consciência ordinário, está sempre presente no mundo numinoso e feérico da miração. Está presente aqui e agora, desde que queiramos acreditar nela e assumi-la na nossa vida cotidiana. É bom acreditar que fazemos parte de um destino muito mais nobre, que repousa no conhecimento do ser e que pode ser revelado pelo sacramento enteógeno a qualquer reles mortal e pecador. A experiência com as plantas sagradas não é a única que ajuda a realizar este destino. Mas por ser um atalho, é o caminho mais curto. Essa é a autêntica boa nova que está sendo anunciada a todos os buscadores da verdade, confirmando a promessa feita há mais de dois mil anos. Quem é esse novo e misterioso mensageiro? Para alguns psiconautas trata-se de um alcalóide, de uma mensagem cifrada depositada no mundo vegetal por uma espécie de Inteligência Alienígena. Para outros, é um nível de consciência onde podemos vivenciar a realidade do Eu Superior e do próprio Deus. Mesmo considerada de formas tão diversas, de onde é que brota essa voz capaz de nos elevar espiritualmente e ajudar a salvação não somente de nossa alma mas também de nossa espécie? Do fundo de nosso ser? Da pérola azul onde se encontra a sede de nosso Eu? Do lótus de mil pétalas? Da baraka do sheik, da presença do Mahatma ou de um suco de um cipó da mata? Ou será que ela está sendo ouvida por nós vinda na velocidade da luz, desde as entranhas da eternidade? Ambas as sensações são verdadeiras e a consciência humana é este ponto de intersecção entre o interior e o além, entre o ser profundamente íntimo e ínfimo, e o Cosmos, sem limite nem tempo. Ensina as Upanishads : Tu és isso ! Desde o início da idade de ouro, aurora dos tempos, que o poeta grego Homero denominou de "aurora dos dedos de rosa ", que as plantas sagradas despertam nos homens a lembrança de suas origens, a nostalgia do sagrado e uma ânsia por essa re-ligação com aquilo que se constitui no mistério básico de sua existência. Podemos ter uma idéia de interesse que esse tema tinha na antiguidade, quando consideramos a celebração quase ininterrupta dos cultos de Eleusis durante 2.400 anos. Neste grandioso festival iniciático, que tinha lugar na cidade do mesmo nome, culminando meses de preparação e peregrinagens, era realizado um grande trabalho espiritual. O templo abrigava duas mil pessoas. E o Grande Hierofante conduzia a cerimônia onde era relembrada e representada a lenda do rapto de Perséfone, filha da Deusa Deméter, por Hades, Deus da Morte, que a levava para o Reino dos Espíritos. O momento culminante do ritual era quando, sob efeito do fungo claviceps purpurea, todos os presentes tinham visões coletivas sobre a história da Deusa e uma compreensão profunda do seu conteúdo simbólico e significado espiritual. Em nossos dias, a aurora já está cedendo o seu lugar aos tons incertos do crepúsculo. O mocho de Minerva está voando nos céus e nos trazendo novos presságios sobre o destino da humanidade. Nada mais natural que, passados mais ou menos 1.600 anos, desde que o Culto de Eleusis foi suprido pela nascente organização eclesiástica cristã, o mensageiro enteógeno esteja de volta, na forma de uma planta sagrada que desempenha o mesmo papel que os avatares do passado, de nos instruir nos momentos de crise e de decadência da verdade. Dizem que, periodicamente, a forca espiritual que assiste e modela este planeta muda de lugar, o que explicaria os súbitos ciclos de decadência e de florescimento de culturas e tradições religiosas. Foi assim que se sucederam os cultos do Soma no início do período védico, os Mistérios de Eleusis na Grécia Antiga, as tradições cristãs gnósticas e esotéricas, os yogues do Tibet, a Cabala da Espanha Islâmica, os Incas e Aztecas até chegarmos nos povos e culturas remanescentes do Éden Original, situado na selva sul-americana. Parece que foi lá que Deus semeou grande parte da sua farmacopéia enteógena."

Ritual na fogueira
Altar na floresta
Roda do fogo